Quando acordarmos, pela manhã, não nos esqueçamos de verificar se ainda continuamos dual; a dualidade é que nos faz humanos.
O ser humano é inegavelmente dual; a corporeidade nada seria não fosse sua alma, que alimenta a vida.
A sociedade contemporânea não tem permitido ao homem moderno desfrutar conscientemente essa dualidade. O que expressamos no dia-a-dia é de um materialismo aterrador e funesto. Seres sem alma em disputa pelo ter, perdidos em meio a multidão que caminha sem norte em busca do nada.
O homem é um envólucro agregado pela estética e o conteúdo biológico; mas sua alma é que o torna humano e completo, pronto para o trânsito no mundo e com o mundo, se fazendo e fazendo o mundo.
Àqueles que se deixam conduzir pelo lustro da matéria; pelo engodo do ter; pelo aformoseamento da estética, que lhe induz a crer numa silhueta objetiva e a esquecer-se da própria e inerente subjetividade, que no mais profundo do ser aponta-lhe o caminho da verdade, esses, rompem o liame único que mantém viva a existência material com o Ser.
Muitos caem perante a vida; desvanecem-se como fragmentos de ínfimas gotas de uma possibilidade não consubstanciada. Inertes ante ao ter e sem forças para suplantá-lo, anulam-se como humanos, percorrendo uma estrada tortuosa como se fossem zumbis às escuras, atormentados pelo medo e pelas trevas da angústia.
É pois necessário que não esqueçamos nossa alma; não a deixe em casa como se fosse uma roupa de domingo. O mundo que estamos fazendo é o mesmo mundo em que nos fazemos no dia-a-dia de nosso trânsito existencial. O outro, que pode a qualquer momento atravessar nosso caminho é o mesmo Ser que está tendo seu caminho sendo atravessado por nós. Não podemos impedi-lo de passar para que ele não nos impeça de continuar nosso trajeto.
Ao movermos uma peça do xadrez movemos toda a existência, e a transformamos. Nossa ação no mundo, move o mundo, e o encaminha para o bem ou para o mal.
