Talvez seja essa pequena frase a mais popular pronunciada pelos seres humanos. Também, a mais ingênua; desprovida de objetividade, racionalidade e imparcialidade.
Eu te amo significaria, antes de se pronunciar a frase, certamente dirigida a alguém, saber-se o que é o amor (?).
Quando se confidencia a alguém “eu te amo” devemos estar ciente sobre o que me move a esse suposto amor que penso ter. Antes de tudo, estar ciente de que “eu te amo” é desprovido de egoísmo, de satisfação e de prazer subjetivo, posse, poder e propriedade.
Amar é ter desejo, sim; é proteger, também; mas amar, antes de tudo, é deixar o outro Ser.
Ser significa construir meu próprio EU e isso inclui a liberdade de ME expressar, transitar e conviver com o mundo; mundo esse que não é o mundo de nós dois, mas o meu mundo e o teu mundo; o meu mundo e o mundo dos outros. Assim, eu escolho “Ser no mundo” e não somente “estar no mundo”.
Essa comunicação livre e sem amarras é que possibilitará, a cada Ser, a construção do seu EU, que é subjetivo; faz parte do indivíduo; do uno existencial.
O Outro não é nossa propriedade e por isso necessitará da liberdade para transitar no mundo tanto quanto cada um de nós. Ser livre significa ser “dono do seu próprio nariz”; estar ciente de que atrás de si não existe um sensor para dizer o que está certo e o que está errado, pois o certo e o errado também são coisas subjetivas.
Querer o Outro como a uma propriedade é transformar o Ser humano em coisa, objeto, mercadoria; o Outro não é nossa propriedade e por isso eu não o tenho. Não é minha posse; não é minha coisa; não é meu!
As expressões “meu” amor; “minha” amada; “minha” mulher; “meu” marido; meu isso e meu aquilo são as mais erradas do vocabulário humano, porque aquilo que é meu não É.
Minha propriedade; minha biblioteca; meu carro; meu dinheiro são coisas e coisas são desprovidas de SER, portanto, não são no mundo; apenas estão no mundo.
Para SER é necessário não ser, pois o SER não é objeto; não é coisa; não é matéria. O SER é espírito, alma, composição física também, mas impregnado de injunções metafísicas. O SER é essência e existência.
O amor é incondicional, não exige troca, não pede recíproca; amor é dádiva, doação, gratuidade. Amar é constituir-se como o outro para compreender sua essência e deixar livre sua existência.
Essa alteridade pressupõe que o Amor seja o projeto de realizar a assimilação entre o Eu e o Outro. Mas para que o outro possa considerar-me assim é preciso que ele possa querer, isto é, ser livre; por isso, a posse física, a posse do outro como coisa, é no Amor, insuficiente e decepcionante. É preciso que o outro seja livre para querer amar-me e para ver em mim o infinito.
Dizer “eu te amo” sem entender essa alteridade é confundir amor com paixão. A paixão é transitória e temporal; o amor é perene e atemporal.
“Eu te amo” não se consubstancia caso houver a necessidade da pergunta “tu me amas” (?) porque “eu te amo” não exige condição.