Seria tautológico dizer que a
obra de arte é aberta pois ela o é. O artista quando inicia o processo de
criação está envolto em sua objetividade e em sua subjetividade; seu
cotidiano não difere do cotidiano que cerca todos os humanos que habitam uma
sociedade, e nesse processo de criação está
envolto e com ele se confunde. Entretanto, como artista, no processo de criação
sua subjetividade aflora independente da sua vontade objetiva. Nessa simbiose a
veia artística se desenvolve externando objetividade e subjetividade e se
consubstanciando no coração da obra: a sua essência e que, na duração do fazer
e se fazer, culminará na sua existência.
O processo de criação exige do
artista, de forma inconsciente, àquilo que lhe é próprio: a sensibilidade. É
pela sensibilidade que se processa todo o arcabouço de uma obra e é pela
sensibilidade que o artista a tem pronta antes mesmo de externar um só pingo de
tinta em uma tela, um só pingo de caneta no papel, um só dedilhado no teclado
do piano. A obra, assim, existe sem existir; vive sem ainda ter nascido. Aqui,
exatamente aqui, ela tem um "dono" que lhe possibilitará o sopro da existência;
ela, a obra, vive no artista, lhe é intrínseca, faz parte da sua alma. Ela é o
sangue de vida do útero materno; o sêmen não processado pelo acasalamento, mas
que vive em potência; pela potência de Ser.
Arduamente o artista transforma a
potência em Ser, ao estabelecer o liame entre a sensibilidade e o processo de
criação. Assim o artista e a obra, se fazem; uma obra tem na sua essência a
sensibilidade do artista e, ao mesmo tempo, é o artista. Contém na sua
composição pragmática toda essência potencializada na criação que se fez e foi
feita. Enquanto o artista faz a obra a obra se faz com o artista. Esse caminho
de mãos dadas, onde misturam-se emoções, pensamentos, realidade e irrealidade;
sensibilidade, manifestações inconscientes faz da obra em formação sempre
inacabada; sendo criada ao mesmo tempo que se cria. O artista cria a obra e a
obra se cria com o artista. Uma obra de arte em criação nunca é, nem mesmo um
esboço; a primeira pincelada, a primeira tentativa de aformoseamento aflora-se
pela sensibilidade artística uma parceria entre aquilo que é pensado ou projetado
e aquilo que vai se processando na criação.
Assim pois, a obra de arte nunca
é; ela está sempre em formação pois a sua estrutura pragmática, a sua
existência, será sempre aberta e a cada olhar se manifestará em processo,
estando sempre em constante superação daquilo que é para aquilo que tem
potência de Ser.
Exatamente nessa constante
superação alia-se ao artista e à obra o seu objetivo: deixar-se ver;
mostrar-se; encantar e desencantar. Questionar e despertar sonhos ou verdades.
A obra é pois livre e aqui perde a paternidade e se coloca aberta a
interpretações. Ela é, por si só, uma infinidade de possibilidades
interpretativas e satisfaz a cada uma dessas interpretações por estar aberta justamente à todas essas interpretações. A obra não é mais do artista, não tem
mais "dono"; rompeu-se o ínfimo fio de ligação entre o criador e sua criação. Nem
mesmo a própria obra é mais dona de si pois sua extensão é infinita.
Assim pois, vê-se na obra de arte
o sonho, a realidade, a quimera, a verdade, a ilusão, a vida e a alma; a música
e a poesia. Nessa dança em que o autor e a obra embalam àqueles que se misturam
com seus olhares e com suas almas processa-se o ápice da escalada ao infinito
do artista.
A FORÇA EXPRESSIVA DE UMA OBRA DE
ARTE
A verdade expressada por
Vanderlei Assis tornou sua Obra, apresentada no Vernissage do Salão Verde da
Câmara dos Deputados, em debates acalorados sobre a existência humana e os
caminhos desconhecidos depois da transição entre o Ser e o Não-ser. Um misto de
tentativas e elucubrações filosófico-teológicas se desenvolveram durante os
dias da exposição e, quizá, durante
as noites em que àqueles que lá estiveram deixaram seus pensamentos
conduzirem-nos aos devaneios de uma realidade impossível de se desfazer ou de
se mudar.
O quadro é atípico pois foi
rejeitado pela filha do artista que viu, naquela obra, a retratação de uma
caminhada existencial associada a seus pais. Claro uma interpretação também
atípica pois envolveu a passionalidade, compreensível pela ligação emocional.
Foi por essa atipicidade que o
quadro envolveu tantas outras pessoas, entre debates acalorados e as tentativas
de estabelecerem-se primazias filosóficas ou teológicas nos argumentos de mesa
de bar.
Por atenção, amizade e o fugaz
coleguismo de atividade, que nos levou a estreitar mais ainda nossos laços
ideológicos, fui brindado com a preferência para aquisição de Ghost sem que houvessem
lances de leilão, comuns em situações de disputas por obras de arte. O quadro
acompanha-me desde àquela época e tem uma história não só esboçada na surpresa
pelo choque da sua expressão causado na filha do artista como pela sua
“sobrevivência” ao incêndio que destruiu minha biblioteca, consumindo uma
infinidade de livros raros e o acervo de obras de arte amealhados em mais de 40
anos, entre outras raridades. Sobreviveu Ghost que, por ironia, expressa uma
objetividade existencial irrefutável: O viver e o morrer!
O ARTÍSTA
Vanderlei Assis é um desses artistas
difíceis de se encontrar nos catálogos comuns dos Marchand, pois ele é especial
sem querer sê-lo. Sua generosidade humana, desvestida do ego, do pragmatismo
fútil e comercial, do esnobismo e do convencimento ilusório; sua tranquilidade,
irradiando paz mesmo em meio a uma guerra; a leveza de sua alma que colhe do
nada a semente para frutificar a obra, criando belas ilusões ou afrontando-nos
com verdades absolutas, que por vezes fugimos de ver, ou de aceitar, são
mostras da sua potencialidade como Artista.
Esse Vanderlei-Artista conheci
muito tempo depois de com ele transitar por caminhos eivados de espinhos na
estrada política. Nosso trânsito pelas áridas estradas que possibilitam
encontros e desencontros, nos debates ideológicos, não me deixaram ver no
colega político um Artista com a sensibilidade que ora reconheço. Médico,
Físico, Professor e Matemático o Artista Vanderlei se completa na Arte e a Arte
o completa. Suas várias obras retratam desde o rosto desconhecido expressando a
existência humana, passando pelas fotografias da sua terra, o Rio de Janeiro,
onde o mar é a mansidão e a infinitude, até um surréalisme
francês cunhado por André Breton com base na ideia de "estado de fantasia supranaturalista"
de Guillaume Apollinaire, e que traz um sentido de fuga da realidade comum,
transpondo-se para uma supra-realidade. Essa tentativa de resolver uma
contradição antiga entre sonho e realidade criando uma realidade absoluta fazem
daqueles e dos atuais artistas exploradores, nas artes, do imaginário e dos
impulsos ocultos na mente.
Vanderlei seguramente tem do seu
público, de seus admiradores e dos seus companheiros de tantas lutas, algumas perdidas,
outras vencidas, sem que vencer tenha sido a glória, mas sim a compensação pelo
esforço de se querer o melhor para àqueles que habitam este mundo que nos foi
dado por emanação, tem, sim, seguramente uma gratidão pela sua generosidade
humana expressada por la sympathie de
l'artiste.
OBRA: Ghost
TELA: 86 X 63
AUTOR: Vanderlei Assis
ACERVO PARTICULAR do Prof.
Irapuan Teixeira
Obra declarada à Receita Federal
como patrimônio.
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