quarta-feira, 13 de abril de 2016

O MERCADINHO DA VIZINHA: Divagações sobre a realidade.

Muito serviço, horários a cumprir e ponto para assinar; qualquer atraso é descontado do meu salário.

Ufa!

Filhos para sustentar, colégio para pagar pois o ensino público está um caos... o médico não perdoou a gripe da minha filha menor e aplicou remédios caríssimos, a farmácia do estado não disponibiliza esses medicamentos. O filho maior necessita de um tênis pois o atual está velho e rasgou o solado. Meu salário só aumenta com o mínimo. Opa! O mínimo! Eu ganho um salário que é mínimo, será que alguém vive com salário menor?

Puxa vida o meio dia é horário de almoço, planejamento de assuntos familiares, conversas com a mulher e as crianças e ainda tenho que quebrar minha cabeça com a Declaração do Imposto de Renda; haja tempo!

Sem carro, pois isto é luxo em demasia para quem, mesmo trabalhando de “sol a sol”, não tem orçamento suficiente; mal disponibilizo parcela do salário para pagamento do aluguel, que é “sagrado” e inalienável. Impossível ter um carro!

Me esforço para não errar as informações ao fisco, afinal as multas são pesadas e qualquer omissão, mesmo por erro, é imperdoável; imediatamente, qualquer fiscal, aplica multas pesadíssimas e fica-se com a pecha de sonegador, má fé e outros itens do dicionário que serviria àqueles que realmente lesam ou cobram impostos pesadíssimos mascarados pela fantasia de “Imposto sobre a Renda”. 

Mas meu salário não é renda!!!! 

Já nem posso considera-lo salário, quanto mais renda. Enfim; manda quem pode, obedece quem precisa” pois a vizinha do mercadinho foi multada em 120 mil reais e teve que ouvir até desaforos do fiscal da fazenda que a intitulou de sonegadora; disse inclusive que a mulher teria alterado documentos para se safar do imposto. 

A realidade? 

A realidade é que o contador cometeu um erro que beneficiou o próprio governo. Fez uma firma para o mercadinho com um documento de compra de posse do imóvel assinado pelo vendedor que já havia feito um documento anterior vendendo o imóvel para a senhora do mercadinho, pessoa física. Rasgaram o documento de venda para a senhora e fizeram outro vendendo o imóvel para a firma. Nada mais correto pois a firma é da dona do mercadinho e foi ela que comprou o terreno; por que não pode fazer a firma e colocar o terreno em nome dessa firma? Pode! Só que se o fiscal achar que é maracutaia...ferro no contribuinte. 

Foi o que aconteceu com a senhora do mercadinho!

Como são documentos de posse, uma vez que os terrenos não estão regularizados pelo governo municipal, ficam na gaveta. Rasgou-se um e fez-se outro para regularizar a firma como empresa. Não deu outra! Uma "baita" confusão! Só faltou a parafernália dos carros de polícia, o resto o fiscal se encarregou de fazer. 

Enquanto isso, mais acima, a bandidagem traficando drogas, vendendo e comprando terrenos, carros e tudo àquilo que o fiscal não vai coibir. 

Será que ele tem medo de subir mais alguns metros morro acima?

Mas está difícil a concentração com o vizinho de uma casa a 100 metros da casa que alugo, ouvindo(?) um som absurdamente alto! 

Será que colocou potentes alto-falantes nas janelas? É o que parece. Músicas (?) ou melhor, pornografias, aos urros entremeadas por um som estridente e desafinado (chamam isso de funk?) que, perpassa os tímpanos; assim não é possível se pensar!!!

O remédio é solicitar auxílio às autoridades, afinal pago imposto...

Alô é da Polícia Militar?...

“Senhor, a cidade está infestada de gente ouvindo músicas; nada podemos fazer! E também não temos viaturas disponíveis. Lamento”.

Mas não são músicas! É pornografia pura, incitação ao crime, afronta às autoridades e ameaças a polícia! Em altíssimo som, estridente, aos berros, uivos e até sons de metralhadora!

“Sinto muito senhor...nada podemos fazer. Se houvesse possibilidade eu até iria com uma viatura ao local, mas chegando lá desligariam os aparelhos e quando eu saísse retornaria tudo novamente; inclusive podendo haver represálias contra o senhor”.

Mas... e a lei?

“Boa pergunta meu senhor; a Polícia está de mãos atadas para tudo e não só para as transgressões referentes ao som alto; prendemos um bandido hoje e amanhã estamos recebendo tiros, até de metralhadora, do mesmo bandido; ontem mais outro colega foi baleado”...

Muito obrigado pela sua atenção policial.

Tento me concentrar e milagrosamente o som dá uma trégua; que alívio!

Vou à janela pois parece que ouvi tiros! Bem... tiros já é coisa rotineira de se ouvir; mesmo nós moradores de um bairro que já foi “chic” e tem uma Universidade Federal e um Batalhão da Polícia Militar como referência.

Como não é possível ver as balas perdidas ou endereçadas o melhor é ter prudência, mas não pude furtar-me de ver o carro luxuoso, zerinho, zerinho, ter sua porta aberta pelo traficante que ouvia o som estridente agora a pouco.

Que carrão!
Puxa esses camaradas têm um vidão! Carrão, roupa de grife, correntões de ouro no pescoço (ahh isto eu até dispensaria!). E sem necessidade de cumprir horários (!); ou melhor, eles nem trabalham... E que som potente o camarada comprou!...

Xiiiiiiiiiii vai explodir os ouvidos, o som do carro também é absurdamente alto! Treme tudo...

Aaaaah o som dos tiros? Era a "música"!

Chega de divagação, tenho que concluir as contas do Imposto de Renda e já está na hora do turno da tarde...


Mulher!!!

2 comentários:

Unknown disse...

Retrata bem a realidade da "democracia"que vivemos, onde liberdade se confundiu com libertinagem onde o cidadão que se omitiu da política está sendo governado por desordeiros que estimulam o caos para se manter no poder

Dayane Dias Gomes Miyasaki disse...

Retrata bem a realidade da "democracia"que vivemos, onde liberdade se confundiu com libertinagem onde o cidadão que se omitiu da política está sendo governado por desordeiros que estimulam o caos para se manter no poder